quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Suméria


Quem vivia ali já não podia reclamar de nada sob o risco de levar bala. Também tinha que se virar sem remédios, aparelhos médicos ou comida – um embargo econômico assolava o país havia dez anos. Em março do ano passado, para piorar, o lugar foi invadido por todos os lados, teve suas cidades destruídas e quase 15 mil pessoas mortas, além de milhares de vítimas feridas. O Iraque foi o pior lugar do mundo em 2003 e talvez em toda a última década. Mas sua história nem sempre foi assim. Na mesma terra que recebeu as bombas daisy cutters americanas (as maiores e mais poderosas bombas não atômicas, que os militares americanos chamam ironicamente de “cortadoras de margaridas”), se assentam os restos da civilização mais esplendorosa do início dos tempos. O povo que criou a escrita, as primeiras técnicas de engenharia e cujas lendas e mitos estão repetidas em várias culturas posteriores, como a babilônica e hebréia.
Foram os sumérios que cravaram um fim nos 150 mil anos de Pré-História, com a invenção da escrita cuneiforme. Também inventaram o modelo de cidades, em um território que começava próximo ao centro do atual Iraque, onde hoje é Bagdá, e seguia em direção do sul até mar. Isso tudo entre 4000 a.C. e 1600 a.C, quando a Mesopotâmia, a região entre os rios Tigre e Eufrates, era marcada ora por tempestades de areia que se arrastavam por quilômetros, ora por regiões pantanosas e alagadiças. “Foi uma espécie de primeira revolução urbana da história”, diz Marcelo Rede, professor de história antiga da Universidade Federal Fluminense (UFF). As primeiras populações estabelecidas na planície da Mesopotâmia eram nômades ou seminômades.
“A passagem para a agricultura foi o passo fundamental para a sedentarização, e as cidades surgem como aglomerados de comunidades agrícolas”, afirma o professor. De um povo originariamente agrícola que precisava lutar contra a fúria da natureza, surgiu uma civilização urbana, com comércio desenvolvido e que primava pelos registros escritos. Sua estrutura social privilegiando o varejo gerou uma elite cercada por luxos e prestadores de serviço. As palavras dos membros dessa elite tinham tanta força que eles legitimavam seus documentos por meio de um objeto usado até hoje: os selos. Cilíndricos, eles eram cunhados em pedra e rolados em tabletes de argila.
Raízes da raiz quadrada
Como bons comerciantes, os sumérios foram bastante dedicados à matemática. Há registros de transações comerciais envolvendo crédito, empréstimo e pagamento de juros mesmo sem sistema de cunhagem de moedas. Os preços eram geralmente fixados em relação ao valor de metais como cobre e prata, trazidos de outras regiões. Os sumérios foram os precursores da tábua pitagórica, raízes quadradas e cúbicas, frações com numerador 1, pi com valor de 3, bem como do sistema sexagesimal, que originou conceitos usados até hoje, como a hora de 60 minutos e ângulo de 360 graus.
Toda essa matemática era usada para controlar as águas dos rios Tigre e Eufrates. Canais e barreiras eram construídos para controlar as cheias, o que também ajudava a facilitar a navegação e o abastecimento das cidades. Um desses canais partia da cidade de Hit e seguia paralelo ao Eufrates por quase 400 quilômetros. Ao contrário dos egípcios, que viam nas cheias do Nilo um benefício para o cultivo, os sumérios encaravam as inundações como uma maldição divina – uma delas pode ter criado a lenda bíblica do dilúvio (leia quadro na página 55). Esse medo de inundações provavelmente surgiu porque as cheias do Nilo aconteciam na época de germinação das sementes, ajudando a fertilidade do solo, enquanto na Suméria elas ocorriam sem data prevista e quase sempre perto da época da colheita. A força dos rios era usada até como tática militar: inundava-se uma cidade para dominá-la.
E nada era mais comum entre os sumérios que brigas. Guerras eram travadas não contra nações vizinhas, mas entre eles próprios. “As cidades sumérias eram sedes de reinos, cada qual com sua dinastia”, conta Rede. Independentes, os cidadãos de cada local aproveitavam para saquear o que havia de matéria-prima nas cidades vizinhas: faltava a eles um material que fosse diferente de argila. Metais e madeiras precisavam ser importados – muitas vezes eram obtidos por meio de um comércio não muito, digamos, honesto.
Por isso, um costume muito comum das cidades era o de erguer enormes muralhas de barro para proteger o núcleo urbano – os agricultores da periferia ficavam de fora dessa. As batalhas entre as cidades também acentuaram a escravidão. Viravam escravos os soldados e os moradores das cidades dominadas, bem como devedores e suas famílias e até mesmo filhos mal-educados. Para “aquietar” a rebeldia excessiva da prole, os pais podiam “alugar” seus rebentos como escravos durante um determinado período.
Mas o motivo mais importante para a guerra era religioso. Os sumérios acreditavam em uma grande quantidade de espíritos do mal ligados aos fenômenos da natureza. Tempestades de areia eram vinganças dos deuses. Inundações também. Guerras só poderiam ser movidas pelos deuses. A eles também era atribuída a nomeação do líder das cidades-estado, o lugal (“homem grande”). Mas em períodos expansionistas, com a dominação de outras cidades, havia normalmente um governador designado diretamente pelo lugal.
Rei estrangeiro
O separatismo sumério permaneceu na região até 2800 a.C., quando Etana, soberano da cidade de Kish, começou a unir diferentes núcleos sob um único comando. Ele inaugurou um período de tranqüilidade que culminou com a primeira dinastia de Ur, por volta de 2500 a.C., época conhecida por pax sumerica. Mas as cidades de Ur, Eridu e Kish nunca pararam de disputar o título de capital. Enquanto Lagash saía na frente por suas fortificações, importância econômica e por ser um canal de comunicação com o golfo Pérsico, sua maior adversária, Ur, a terra de Abraão, era temida por seu exército. Já Kish era o maior centro espiritual da Mesopotâmia: teria emergido ali o primeiro líder político e espiritual após a grande inundação dos rios Tigre e Eufrates, no século 4 a.C.
Por volta de 2430 a.C. a cidade de Umma, sob o comando de um príncipe chamado Lugalzaggheshi, conseguiu se sobrepor a Lagash e tomar Ur, Kish e Uruk, se expandindo até a região das atuais Síria e Palestina e formando um reino que contemplava também o povo acádio. Ele tomou poder em Lagash incitado pelo clero e burguesia, cansados das reformas sociais promovidas por Urukaghina, o líder de Lagash.
O monarca sumério que ficou mais famoso, porém, não veio de nenhuma dessas cidades. Em 2335 a.C., o acádio Sargão se aproveitou da fragilidade dos sumérios, gerada pelas guerras internas e por problemas na agricultura devido à salinização do solo, e tomou conta do território que se estende do Mediterrâneo ao mar da Arábia. Conhecido por ter uma alma impiedosa, ele instalou a capital em Agade, que pode ser a atual Bagdá, e organizou um exército com modernas estratégias militares. Sargão, como um Saddam Hussein, orgulhava-se de ser aquele que “não concede perdão a ninguém”.
Sua força deixou os sumérios em baixa até 2100 a.C. Pouco tempo antes, a Mesopotâmia foi invadida pelos gútios, que derrubaram Sargão, mas não conseguiram fincar raízes por ali. Foram expulsos pelo governador de Ur, Unamu, que aproveitou para conquistar boa parte das terras entre o Tigre e o Eufrates. A partir daí, os sumérios viveram um período de paz, em que a engenharia, a burocracia e as artes floresceram.
Mas nem todas as cidades se desenvolveram igualmente. Havia núcleos de pobreza e de revolta. Algumas, como Isin e Larsa, conquistaram sua independência, pois não aceitavam a pressão econômica aplicada aos agricultores. Os rebeldes crescem em número e em força e conseguem derrubar a maior parte do império, o que condena a civilização suméria – já miscigenada – ao desaparecimento na primeira metade do segundo milênio antes de Cristo. Seus costumes e religião foram adquiridos por outros povos em diversos pontos da Mesopotâmia.
É aí que está a importância dos sumérios hoje. Muito do modo sumério de pensar foi adquirido pelos hebreus e, a partir deles, foi parar na Bíblia. Um dos principais legados hebreus para a eternidade foi o pecado: a culpa era um conceito que não saía da cabeça dos sumérios. Uma mulher que morresse virgem ou de parto virava demônio. Essa noção atrapalhou até a medicina, um ponto fraco da civilização. Muitas doenças eram vistas como punição em relação a desvios de conduta ou más ações, e diagnosticadas a partir da confissão dos pecados. “Para os sumérios, a existência humana é uma decisão divina”, afirma o estudioso da UFF. “Os homens são criados para o trabalho e têm como função primordial servir e sustentar os deuses.” Pena que, nos bombardeios às terras do sumérios ano passado, o temor a Deus legado por eles não foi levado em conta.
 As primeiras letras
A escrita sumériaevoluiu pelo contatocom outros povos
A disputa entre egípcios e sumérios pela invenção da escrita é antiga. Atualmente os chineses também entraram na briga, cuja vitória deve levar muitos anos de estudos até ser alcançada. Independentemente de quem foi o precursor dos registros das palavras, o que se tem certeza é das diferentes motivações. Enquanto os egípcios fizeram seus primeiros garranchos pensando principalmente em louvar os deuses, os sumérios tinham como prioridade os registros comerciais e a administração das cidades. Na Mesopotâmia, a maneira de escrever evoluiu por meio da interação entre diferentes culturas e da miscigenação entre elas. De cerca de 2 mil registros pictográficos moldados ou representados em paredes e muros em meados do quarto milênio antes de Cristo, chegou-se a 590 símbolos representando letras, sílabas ou palavras escritas na horizontal por volta de 700 a.C.
“Atribui-se comumente a invenção da escrita cuneiforme, na Mesopotâmia, aos sumérios, embora não se tenha certeza absoluta dessa afirmação”, diz Emanuel Bouzon pesquisador e professor da Universidade Católica do Rio de Janeiro. “A escrita cuneiforme foi, no início, essencialmente pictográfica e é difícil detectar a língua que se expressa, exclusivamente, por meio de pictogramas. Somente mais tarde, quando passou ao estágio de escrita silábica, foi possível determinar a língua que a usava.” Segundo o professor Bouzon, o nome cuneiforme dado à escrita mesopotâmia vem de ”cunha”, o instrumento de bambu com que se gravavam os sinais na argila ainda mole. “Os textos eram lidos da esquerda para a direita e de cima para baixo.” O pesquisador explica que, antes dos registros nas tábuas de argila, eram moldados símbolos plásticos representando jarros de grãos, ovelhas, bois e até números. Essas gravações eram colocadas dentro de recipientes de argila.
Os símbolos passaram a ser grafados nos recipientes de comércio, que deram origem aos tabletes de argila usados por diversos povos da Mesopotâmia. Cada representação pictográfica correspondia a um som na língua suméria. Isso facilitou o uso dos sinais não apenas ao representar um objeto, mas como sílabas para compor palavras maiores. Estavam inventadas as letras. “Expressar-se silabicamente possibilitou, também, que o escriba sumério pudesse descrever as formas verbais, os pronomes, advérbios e outros elementos gramaticais, que não podiam ser expressos no estágio pictográfico.”
A técnica suméria, então, passou a se espalhar pelo Oriente Médio. “Os semitas que se estabeleceram na Mesopotâmia a partir de aproximadamente 2600 a.C. assumiram essa escrita para sua língua, e ela se prolongou até o século 7 a.C., no período neobabilônico. Foi durante os períodos neo-assírio e neobabilônico que a língua aramaica se tornou o veículo de comunicação e o alfabeto superou a escrita cuneiforme pela sua simplicidade”, diz Bouzon.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Biblioteca de Alexandria



Na sexta-feira da lua nova do mês de Moharram, no vigésimo ano da Hégira (isso equivale a 22 de dezembro de 640), o general Amr Ibn al-As, o emir dos agareus, conquistava Alexandria, no Egito, colocando a cidade sob o domínio do califa Omar. Era um dos começos do fim da famosa Biblioteca de Alexandria, construída por Ptolomeu Filadelfo no início do terceiro século a.C. para "reunir os livros de todos os povos da Terra" e destruída mais de mil anos depois.


A idéia de reerguer a mais formidável biblioteca de todos os tempos surgiu no final dos anos 70 na Universidade de Alexandria. Em 1988, o presidente egípcio, Hosni Mubarak, assentou a pedra fundamental, mas foi só em 1995 que as obras realmente começaram. O suntuoso edifício de 11 andares, que custou US 212 milhões, boa parte dos quais pago pela Unesco, foi concluído no ano passado. Só a sala de leitura da biblioteca principal tem 38.000 m2, a maior do mundo. O acervo, que ainda não foi inteiramente reunido, deverá contar com 5 milhões de livros. Será interessante ver como o governo egípcio, que não é exatamente um entusiasta das liberdades de informação e expressão, administrará as coisas. Haverá, por exemplo, um exemplar dos "Versos Satânicos" (obra de Salman Rushdie, tida como ofensiva ao Islã)? E quanto a livros que critiquem o próprio governo egípcio? Todos os cidadãos terão acesso a todas as obras? Mas não é tanto a nova biblioteca que me interessa, e sim a velha, mais especificamente a sua destruição.

Na verdade, seria mais correto falar em destruições. Como nos mitos, há na extinção da Biblioteca de Alexandria uma série de componentes políticos. A historieta com a qual iniciei esta coluna é uma das versões. É contra os árabes. Existem outras, contra os cristãos, contra os pagãos. Nenhum povo quer ficar com o ônus de ter levado ao desaparecimento da biblioteca que reunia "os livros de todos os povos". É curioso, a esse respeito, que o site oficial da biblioteca (http://www.bibalex.gov.eg) só registre as versões anticristã e antipagã. A contrária aos árabes é descartada sem nem mesmo ser mencionada. Utilizo aqui principalmente informações apresentadas pelo italiano Luciano Canfora, em seu excelente "A Biblioteca Desaparecida".

Voltemos à velha Alexandria. Amr Ibn al-As não era uma besta inculta, como se poderia esperar de um militar. Quatro anos antes da tomada de Alexandria, em 636, ao ocupar a Síria, Amr chamara o patriarca e lhe propusera questões bastante sutis acerca das Escrituras e da suposta natureza divina de Cristo. Chegou a pedir que se verificasse no original hebraico a exatidão da "Septuaginta", a tradução grega do Antigo Testamento, em relação a uma passagem do "Gênesis" que surgira na discussão.

Logo que chegou a Alexandria, Amr passou a frequentar João Filopão, um então já avançado em anos comentador de Aristóteles, cristão, da irmandade dos "filopões". Era também um quase herético, que defendia teses monofisistas, mas essa é outra história.

No curso de uma das longas e eruditas discussões que travavam, Filopão falou a Amr da Biblioteca, contou como ela surgiu, que chegou a reunir quase 1 milhão de manuscritos e pediu a liberação dos livros remanescentes, que, como tudo o mais na cidade, estavam sob poder das tropas do general. O militar afirmou que não poderia dispor dos códices sem antes consultar o califa e prontificou-se a escrever para o soberano.

Algum tempo depois (estou relatando a versão curta da história), o emissário de Omar chegou com a resposta, que não poderia ser mais clara: "Quanto aos livros que mencionaste, eis a resposta; se seu conteúdo está de acordo com o livro de Alá, podemos dispensá-los, visto que, nesse caso, o livro de Alá é mais do que suficiente. Se, pelo contrário, contêm algo que não está de acordo com o livro de Alá, não há nenhuma necessidade de conservá-los. Prossegue e os destrói".

É o que fez Amr. Dizem que ele distribuiu os livros entre todos os banhos públicos de Alexandria, que eram em número de 4.000, para que fossem usados como combustível. Pelos relatos, foram necessários seis meses para queimar todo aquele material. Apenas os trabalhos de Aristóteles teriam sido poupados.

A história é bonita, mas, como toda história, diz apenas parte da História. Em termos mais objetivos, o mais provável é que a Biblioteca tenha sucumbido a vários incêndios, e muitos deles foram apontados por renomados eruditos como os que causaram a destruição da Biblioteca. O iniciado por Amr a pedido do califa Omar teria sido o último dos últimos e também o mais credível, a confiar em Canfora.

Outro incêndio freqüentemente citado é o que teria sido provocado por Júlio César em 48 a.C., quando o general romano decidiu ajudar Cleópatra, que travava então uma espécie de guerra civil com seu irmão Ptolomeu 13, e ateou fogo à esquadra egípcia. O incêndio teria consumido entre 40 mil e 400 mil livros. Uma outra versão diz que o que sobrara da Biblioteca foi destruído em 391 da Era Cristã. Depois que o imperador Teodósio baixou decreto proibindo as religiões pagãs, o bispo de Alexandria Teófilo (385-412 d.C.) determinou a eliminação das seções que haviam sido poupadas por incêndios anteriores, pois as considerava um incentivo ao paganismo.

Na verdade, todas essas versões merecem alguma consideração e não são necessariamente incompatíveis, pois a Biblioteca, ao longo de mais de dez séculos de existência, foi se espalhando por vários edifícios e depósitos da cidade. O fogo em um deles teria poupado os demais, e vice-versa. (O incêndio provocado por César, por exemplo, ocorreu no porto. Só poderia, segundo Canfora, ter destruído livros recém-chegados ou prontos para ser embarcados, pois os edifícios principais da Biblioteca, o Museum e o Serapeum, ficavam longe do porto).

Direitos Cuneiformes



Direitos Cuneiformes: Conjunto de sistemas jurídicos dos povos do próximo oriente, de períodos e regiões diferentes.

·        Muito mal conhecida.

·        Momento alto se dá na época de Hamurábi.

·        Regime de coletivismo teocrático (assembléias de sacerdotes).

·        Leis sem abstração suficiente para o estudo do Direito. 

Os “códigos” dos direitos cuneiformes: recolhas de textos jurídicos e ensinamentos indicando caminho aos juízes.

2040 a.C. Ur-Nammu: mais antigo.

1930 a.C. EsNunna: composto de 60 artigos.

1880 a.C. Lipt-Ishtar: estabelece o direito nas regiões da Suméria e Acádia.

1694 a.C. Código de Hamurábi: mais importante da Antigüidade antes de Roma. 282 artigos. Leis de origem na inspiração divina. Para garantir a paz e proteger os fracos.

“Hamurábi, rei do Direito, sou eu a quem Samas ofewreceu as leis”.

O Direito na época de Hamurábi: sistema jurídico desenvolvido, sobretudo no direito privado e contratos. Desenvolvimento avançado da economia. Poder paternal e direito penal severo

Os Direitos dos povos sem escrita



Os Direitos dos povos sem escrita:

·        Não há muitas informações concretas.

·        Instituições civis: casamento, propriedade, doação.

·        Os direitos dos povos que ainda hoje não possuem escrita são corrompidos pela in fluência de outros povos, principalmente pelo contato com o direito europeu no período da colonização.

·        Dos direitos arcaicos se sabe muito pouco, visto que não são escritos nem revelados pelos estudos arqueológicos.

Características:

·        regras abstratas e limitadas

·        direitos numerosos e de extensão variável.

·        Diversificados

·        Fortemente impregnado de religião (pelo temos constante dos poderes sobrenaturais) e irracional.

·        Não há distinção clara entre o que é jurídico e o que não é.

·        O Direito servia para a manutenção do status quo social e não individual.

A passagem do comportamento inconsciente para o comportamento refletido marca a passagem do pré-direito para o direito.

     Fontes de Direito:

·        Costume, tradição. Obediência ao costume assegurada pelo temor aos poderes sobrenaturais.

·        Direitos enunciados pelos chefes dos grupos sociais.

·        Precedente judiciário é considerado também uma fonte. Pode ser dado pelo mesmo chefe que enuncia o direito.

·        Provérbios e adágios expressam o costume e influenciam o direito.

Direito no Egito Antigo


o exercício da justiça era praticado, pois existe uma clara referencia à lei, aos regulamentos, à regra e ao exercício da Justiça.Os antigos Egípcios constituíram o mais duradouro império da antiguidade Oriental, beneficiados  pela fertilidade propiciada pelo Rio Nilo- uma jóia como dizia Homero.Destacaram se na matemática, geometria, arquitetura e medicina. Porem no âmbito judiciário se tem pouca informação, devido o material (jurídico) encontrado esta muito deteriorado.Mas existem documentos que comprovam a existência do Direito no antigo Egito.A lei escrita era sua principal fonte , os egípcios conheciam as leis e exigiam seu cumprimento perante as autoridades constituídas. Havia preocupação com a conservação dos atos jurídicos, e um dos principais funções do vizir consistia em servir de Juiz na solução das lides. O Faraó contava com auxilio de uma espécie de conselho de legislação No antigo Egito a justiça já era escalonada em instancias, havia uma espécie de tribunal superior chamado Kenbet aat. O maat era um princípio jurídico e filosófico que alcançaria o significado de justiça, verdade e ordem. A poligamia era permitida, porem pouco praticada. As penas no Egito eram sádicas e curiosas, a língua no Egito antigo se chama COTA.

Professor Adolfo no twitter

http://twitter.com/adolfojrs

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

História do Carnaval




A palavra carnaval, do latim carnis levale, significa “retirar a carne”. O sumiço desse item do cardápio representa uma preparação para a quaresma, período dedicado à abstinência, ao jejum e, simbolicamente, ao resguardo do cristão em relação a prazeres mundanos. A quaresma vai da quarta-feira de Cinzas ao domingo de Páscoa, no calendário móvel dos católicos. Tomou o mundo, entretanto, a interpretação de que os três dias que antecedem o suposto sacrifício do prazer deveriam ser um elogio ao excesso, e não uma preparação ritual do jejum. E isso está ligado às longínquas origens pagãs da folia.Desde a Antigüidade, festas populares em várias culturas propunham algo muito parecido com o que se vê hoje no Brasil e no mundo: a suspensão momentânea do estatuto social, a inversão de papéis, de sexos e de valores, tudo com data marcada para terminar.Só muito mais tarde essa catarse popular foi assimilada pelo calendário cristão, operação que resultou mais em fracassos do que em vitórias. No balanço geral, a derrota da religião diante do carnaval é retumbante. O cristianismo, por exemplo, jamais conseguiu esterilizar totalmente os loucos dias anteriores à quaresma, nem mesmo na Idade Média.


Registros históricos indicam que se encontra na Babilônia, cerca de dois mil anos antes de Cristo, a origem pagã mais remota do Carnaval. Mais especificamente, em festas anuais de verão chamadas Sacéias. O mote da brincadeira era a inversão da hierarquia. Durante cinco dias, os lacaios tornavam-se iguais aos seus mestres.Durante as Sacéias, também era costume que um prisioneiro assumisse o lugar do rei. Exibindo as insígnias do poder, ele comia à mesa real e dividia o leito com as esposas do monarca. O sonho durava pouco: no quinto dia, o pseudo-rei era chicoteado, antes de ser enforcado ou empalado.Outro rito babilônico, que tinha como fundamento a inversão, durava 11 dias e ocorria dentro do templo de Marduk, o primeiro dos deuses mesopotâmicos. No fim do quarto dia depois do equinócio da primavera, que marca o Ano Novo babilônico, o sumo sacerdote despojava o rei de seus emblemas de poder. A partir desse momento, o monarca era surrado e arrastado até a estátua divina.A figura do governante humilhado revelava, então, seu objetivo moderador: o rei se jogava no chão e declarava solenemente não ter abusado de seu poder em relação a Marduk e seu templo, à cidade e a seus súditos. Era, em seguida, novamente consagrado, em um ato que garantia a renovação e a justa reordenação do todo o reino.


Alguns antropólogos vêem nesse antiqüíssimo rito mesopotâmico, e não nas Sacéias, a fonte do carnaval, que mais tarde seria exportado pelos persas ao Ocidente.Outros deuses pagãos e reis contribuíram para enraizar as festas carnavalescas no mundo. Na Assíria da Antigüidade, sempre em março, acontecia a festa de Ísis, a divindade egípcia protetora dos navegantes e talvez a de maior popularidade na sua região de influência. Seus adoradores introduziram as máscaras na festa. Era com o rosto coberto que marchavam em uma alegre procissão, na frente de um carro que transportava uma barca, depois oferecida à deusa.Em Roma, havia outras festas fundadas na suspensão das obrigações e das barreiras sociais. Chamavam-se Saturnálias, duravam uma semana e ocorriam no solstício de inverno. A folia fazia com que, nesse curto período, os senhores usassem chapéus dos escravos e os servissem. Por sorteio, era eleito um rei que podia fazer e dizer o que bem quisesse. Outra cerimônia, a das Lupercálias, acontecia em fevereiro, mês das divindades infernais e das purificações.ENQUADRAMENTO A partir do século II, os doutores da Igreja decidiram considerar esses festejos como manifestações do Maligno, senhor da ilusão. Todo aquele que invertesse a ordem das relações sociais ou dos sexos entrava para o reino do demônio, e o homem, criado à imagem de Deus, cometia um grave pecado ao modificar sua aparência com máscaras, diziam.Nada mudou, contudo, nas tradicionais festas romanas de janeiro, em comemoração ao Ano Novo. Em 31 de dezembro, a festa começava com fartas refeições familiares. Em 1o de janeiro, os banquetes e danças avançavam noite adentro. No dia 2, todos ficavam em casa, para se curar dos excessos da véspera. No dia 3, a festa recomeçava e atingia seu auge, com distribuição de moedas à multidão, jogos e desfiles de mascarados.


Esse ritual de origem pagã só encontraria seu enquadramento no novo calendário cristão, fixado no século IV. O nascimento de Cristo passou para o dia 25 de dezembro, e a visita dos reis magos, para 6 de janeiro. A criação da quaresma, cuja data é móvel e depende da Páscoa, ocorreu no século VIII e também teve como inspiração o desejo de controle sobre as práticas carnavalescas.NOITES MEDIEVAIS Por volta do ano 1000, o início do período fértil para a agricultura na Europa Ocidental era motivo de carnaval. Nessa época de grandes desmatamentos, propícios à criação de cidades, os carnavais urbanos e rurais possibilitavam aos habitantes marcar seu domínio sobre os novos territórios.O carnaval era basicamente uma festa de rapazes jovens. Vestidos de mulher, percorriam em grupos os sombrios campos, nas noites de lua cheia, com o rosto enegrecido de fuligem ou sob panos. Alguns usavam as roupas pelo avesso ou um simples saco grosseiro sobre o corpo. Acessórios comuns eram focinhos de porco e capuzes de pele de coelho. Diziam-se habitantes de uma fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos.Esses bandos se acercavam das propriedades rurais gritando “Hu,Hu” e atirando pedras contra janelas, portas e telhados. O som de uma espécie de tambor avisava os ocupantes da iminente invasão da casa. Uma vez dentro, eles perseguiam garotas para conseguir um beijo, sentavam-se à mesa e devoravam crepes e bolinhos, feitos para eles. Tudo isso sem pronunciar uma palavra, a fim de manter o anonimato.Os visitantes mascarados eram chamados de “medos” nos Pireneus Orientais. “Medo” designava, ao mesmo tempo, os que voltavam do outro mundo e o terror que suscitavam.

A Igreja, mesmo tendo absorvido algumas festas pagãs, tinha duas grandes dificuldades. Primeiro, não tolerava nem controlava a febre de usar máscaras, típica do carnaval. Segundo, tinha dificuldade para impedir os excessos de violência e obscenidade, que se repetiam todos os anos. No oeste da França, por exemplo, havia o jogo de soule –longínquo ancestral do rúgbi –, em que todos os golpes eram permitidos. Assim, as partidas da “terça-feira gorda” acabavam sempre em batalhas desordenadas.SUBVERSÃO A vontade da Igreja de controlar a festa nunca conseguiu impedir seu caráter fortemente subversivo. As autoridades, além disso, tendiam a mitigar os exageros, pois viam nesses surtos liberais alguma utilidade: era um modo de controlar as reivindicações sociais da população.Nos países germânicos, a vigilância foi muito mais rigorosa do que na França, em particular em Nurembergue. A partir do fim do século XIV, a duração do carnaval passou a se limitar aos três dias anteriores à quaresma, quando em outras localidades a festa tendia sempre a ocupar mais espaço no calendário.A festa dos germânicos também foi contida na forma. Os desfiles foram regulamentados, e as fantasias, proibidas, com severas punições aos desobedientes. Em compensação, nasceu uma atração que duraria até a Renascença, apesar da oposição dos luteranos a partir do século XVI: as rápidas representações teatrais de rua. Os espetáculos eram feitos por personagens fantasiados e competiam em obscenidade.RENASCIMENTO O carnaval continuou a prosperar nos tempos seguintes, até chegar à Renascença. Em particular nas cidades italianas, onde surgiu a commedia dell’arte, uma espécie de teatro improvisado muito popular até o século XVIII e que ainda hoje sobrevive.


Em Florença se desenvolveram as canções para acompanhar desfiles. Havia os trionfi, carros mitológicos concebidos por grandes pintores da época, como Botticelli, e os carri, que mostraram um mundo burlesco, no qual o cavaleiro carregava o cavalo, e o lavrador puxava uma charrua, sob o comando de um boi.Em Roma e Veneza, os festejos celebravam vitórias políticas do passado e outros feitos históricos. Usava-se a bauta veneziana – uma capa de renda com capuz de seda negra, que enquadrava o rosto e cobria os ombros. Os acessórios eram um chapéu de três pontas e uma máscara branca. A fantasia permitia a abolição temporária de diferenças sociais e, em alguns casos, o prazer de uma perversão à sombra do anonimato.O carnaval em Veneza começava em 26 de dezembro, com bailes nas grandes praças da cidade. Prosseguia com festas, jogos, representações teatrais e outros espetáculos até a terça-feira gorda. Varrido com a República nas guerras napoleônicas do século XVIII, o carnaval de Veneza só foi efetivamente retomado na década de 70 do século XX.No Novo Mundo, o carnaval chegou junto com a bagagem dos navegadores e exploradores, a partir do século XVI. Floresceu no Caribe, na América Latina e no Brasil.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008



A celebração do Natal antecede o cristianismo em cerca de 2000 anos. Tudo começou com um antigo festival mesopotânico que simbolizava a passagem de um ano para outro, o Zagmuk.Para os mesopotânios, o Ano Novo representava uma grande crise. Devido à chegada do inverno, eles acreditavam que os monstros do caos enfureciam-se e Marduk, o seu principal deus, era preciso derrotá-los para preservar a continuidade da vida na Terra. O festival de Ano Novo, que durava 12 dias, era realizado para ajudar Marduk em sua batalha. A tradição dizia que o rei devia morrer no fim do ano para, ao lado de Marduk, ajudá-lo em sua luta. Para poupar o rei, um criminoso era vestido com as suas roupas e tratado com todos os privilégios do monarca, sendo morto levava todos os pecados do povo consigo. Assim, a ordem era reestabelecida. Um ritual semelhante era realizado pelos persas e babilônios. Chamado de Sacae, a versão também contava com escravos que tomavam o lugar dos seus mestres.


A Mesopotâmea, chamada de mãe da civilização, inspirou a cultura de muitos povos, como os gregos, que englobaram as raízes do festival, celebrando a luta de Zeus contra o titã Cronos. Mais tarde, através da Grécia, o costume alcançou os romanos, sendo absorvido pelo festival chamado Saturnalia (em homenagem a Saturno). A festa começava no dia 17 de dezembro e ia até o 1º de Janeiro, comemorava-se o solstício do inverno. De acordo com seus cálculos, o dia 25 era a data em que o Sol se encontrava mais fraco, porém pronto para recomeçar a crescer e trazer vida às coisas da Terra. Durante a data, que acabou conhecida como o Dia do Nascimento do Sol Invicto, as escolas eram fechadas e ninguém trabalhava, eram realizadas festas nas ruas, grandes jantares eram oferecidos aos amigos e árvores verdes - ornamentadas com galhos de loureiros e iluminadas por muitas velas - enfeitavam as salas para espantar os maus espíritos da escuridão. Os mesmos objectos eram usados para presentear uns aos outros.


Apenas após a cristianização do Império Romano, o 25 de dezembro passou a ser a celebração do nascimento de Cristo. Conta a Bíblia que um anjo, ao visitar Maria, disse que ela daria a luz ao filho de Deus e que seu nome seria Jesus. Quando Maria estava prestes a ter o bebé, o casal viajou de Nazaré, onde viviam, para Belém a fim de realizar um recenseamento solicitado pelo imperador, chegando na cidade na noite de Natal. Como não encontraram nenhum lugar com vagas para passar a noite, eles tiveram de ficar no estábulo de uma estalagem. E ali mesmo, entre bois e cabras, Jesus nasceu, sendo enrolado com panos e deitado numa manjedoura (objecto usado para alimentar os animais). Pastores que estavam com seus rebanhos próximo do local foram avisados por um anjo e visitaram o bebé. Três reis magos que viajavam há dias seguindo a estrela guia igualmente encontraram o lugar e ofereceram presentes ao menino: ouro, mirra e incenso, voltando depois para seus reinos e espalharam a notícia de que havia nascido o fiho de Deus. A maior parte dos historiadores afirma que o primeiro Natal como conhecemos hoje foi celebrado no ano 336 d.C.. A troca de presentes passou a simbolizar as ofertas feitas pelos três reis magos ao menino Jesus, assim como outros rituais também foram adaptados.



O Papai Noel


A figura do Pai Natal tem origem na história de São Nicolau, um santo especialmente querido pelos cristãos ortodoxos e, em particular, pelos russos.São Nicolau, quando jovem, viajava muito, ficou a conhecer a Palestina e Egipto. Por onde passava ficava na memória das pessoas devido a sua bondade e o costume de dar presentes às crianças necessitadas. Conta-se que o primeiro presente que o Papai Noel deu foram moedas de ouro, entregues a três meninas pobres. Quando voltou a sua cidade natal, Patara, na província de Lícia, Ásia Menor, São Nicolau foi declarado bispo da cidade de Mira. Com o tempo, o santo foi ganhando fama de fazedor de milagres, sendo esse um dos temas favoritos dos artistas medievais. Nessa época, a devoção por S. Nicolau estendeu-se para todas as regiões da Europa, tornando-o o padroeiro da Rússia e da Grécia, das associações de caridade, das crianças, marinheiros, garotas solteiras, comerciantes, penhoristas, e também de algumas cidades como Friburgo e Moscou. Milhares de igrejas europeias foram-lhe dedicadas, uma delas ainda no séc. VI, construída pelo imperador romano Justiniano I, em Constantinopla (Istambul). A Reforma Protestante fez com que o culto a São Nicolau desaparecesse da Europa, com exceção da Holanda, onde sua figura persistiu como Sinterklaas, adaptação do nome São Nicolau. Colonizadores holandeses levaram a tradição consigo até New Amsterdan (a actual cidade de Nova Iorque) nas colónias norte-americanas do séc. XVII. Sinterklaas foi adoptado pelo povo americano falante do Inglês, que passou a chamá-lo de Santa Claus - em português, Pai Natal. A imagem do Papai Noel como conhecemos hoje foi criada em 1931 por um sueco beberrão chamado Haddon Sundblon, numa tentativa extremamente bem sucedida da Coca-Cola em conquistar o público infantil.Pensavam agarrar rapidamente a próxima geração de consumidores, assim a Companhia investiu na publicidade dirigida a menores de 12 anos, mesmo havendo um grande tabú quanto a isso na época. Esse aspecto acabou por reformular a cultura popular americana. O Papai Noel de Sundblon era o homem da Coca-Cola perfeito - eternamente alegre, alto, vermelho vivo, metido em situações engraçadas envolvendo um conhecido refrigerante como recompensa por uma dura noite de trabalho entregando brinquedos. Antes das ilustrações de Sundblon, o santo do Natal foi variadamente vestido de azul, amarelo, verde ou vermelho. Na arte européia ele era em geral alto e magro, ao passo que Clement Moore o descreveu como um elfo em The Night Before Christmas.


A Árvore de Natal


A tradição da árvore de Natal surgiu na Alemanha, no século XVI. As famílias germânicas enfeitavam suas árvores com papel colorido, frutas e doces. Somente no século XIX, com a vinda dos imigrantes à América, é que o costume espalhou-se pelo mundo.


Feliz Natal em 25 idiomas


Alemanha - Fröhliche Weihnachten

Bélgica - Zalige Kertfeest

Brasil - Feliz Natal

Bulgária - Tchestito Rojdestvo Hristovo, Tchestita Koleda

China - Sheng Tan Kuai Loh (mandarim)

Croácia - Sretan Bozic

Dinamarca - Glaedelig Jul Eslovênia - Srecen Bozic

Espanha - Felices Pascuas, Feliz Navidad

Estados Unidos da América - Merry Christmas

Finlândia - Hauskaa Joulua

França - Joyeux Noel Grécia - Eftihismena Christougenna

Holanda - Hartelijke Kerstroeten

Inglaterra - Happy Christmas

Irlanda - Nodlig mhaith chugnat

Itália - Buon Natale

México - Feliz Navidad

Noruega - Gledelig Jul

País de Gales - Nadolig Llawen

Polônia - Boze Narodzenie

Portugal - Feliz Natal

Roménia - Sarbatori vesele

Rússia - Hristos Razdajetsja

Suécia - God Jul

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Um naufrágio esquecido


No dia 30 de janeiro de 1945, em plena Segunda Guerra Mundial, um submarino soviético atacou e naufragou o navio a vapor alemão Wilhelm Gustloff. Os seis mil refugiados a bordo vinham da Prússia Oriental e buscavam um lugar seguro no Ocidente. Numa das maiores catástrofes navais da história, mais de cinco mil pessoas morreram nas águas geladas do mar Báltico, próximo a Gdansk, hoje Polônia. No final de janeiro de 1945, a poucas semanas do fim da Segunda Guerra Mundial, multidões de alemães estavam em fuga do cerco soviético no centro da Europa. Enfrentando temperaturas de 20 graus Celsius negativos, o formigueiro humano vinha em direção à costa do Mar Báltico. Na maioria mulheres e crianças, na expectativa de entrar num navio com destino ao Ocidente. No porto de Gdingen, em Gdansk, estava ancorado o Wilhelm Gustloff. Concebido pela organização Força pela Alegria, do partido de Hitler, o navio era usado para cruzeiros de férias. Como o Titanic, o Wilhelm Gustloff era um enorme navio de passageiros razoavelmente novo e luxuoso. Construída em 1936, a embarcação recebeu o nome do diretor regional do Partido Nacional Socialista na Suíça, assassinado por um judeu em 1935. Quando aportou em Gdansk em 22 de janeiro de 1945, 60 mil pessoas já estavam a sua espera. Apesar da capacidade para apenas 1400 passageiros, quase 6500 conseguiram um refúgio no navio, que deixou o porto na tarde do dia 30. A embarcação, entretanto, foi rastreada pelos soviéticos e posta a pique por três torpedos lançados de um submarino. O Wilhelm Gustloff ainda resistiu por 62 minutos antes de ir a pique. Os passageiros, em pânico, não conseguiam soltar os poucos barcos de salvamento, cujas amarras estavam congeladas. Mais de cinco mil pessoas perderam a vida nas águas geladas, apenas 937 sobreviveram.
Sem dúvida, mergulhar em um transatlântico é um dos maiores prêmios para um mergulhador de naufrágio. Pude sentir essa emoção quando visitei um navio desses em Janeiro desse ano. Durante uma excelente semana de mergulhos em Recife, a capital do mergulho em naufrágios no Brasil, fui convidado pelo Edísio, da operadora Aquáticos, a ir até um pequeno vilarejo de pescadores chamado "Lagoa Azeda", distante cerca de 60 km de Maceió. Essa localidade é o ponto mais próximo do local de descanso do Itapagé, um navio de passageiros torpedeado pelos alemães durante a segunda guerra mundial. Devido a sua natureza, esses navios são majestosos e os mergulhadores de naufrágios encontram ali, o ambiente perfeito para a prática dessa atividade tão apaixonante.Outros navios de passageiros estão afundados no litoral brasileiro. Alguns já foram localizados e são mergulhados, como o "Príncipe de Astúrias" em Ilhabela. Outros, como o "Príncipessa Mafalda" (edição do WET, Julho de 2003), naufragado na região de Abrolhos ainda não revelaram sua localização .

Por todos os mares e oceanos do mundo, vários navios de passageiros, também conhecidos como "Liners", foram a pique, mexendo com a imaginação das pessoas e sendo usados como pano de fundo para produções cinematográficas. Para incrementar essas estórias que são levadas ao público em todas as partes do mundo, são criados fatos fictícios e romances; mas um aspecto é real : suas vítimas. Milhares de pessoas morreram em desastres no mar e, muito provavelmente devido ao filme, o Titanic é tratado como o maior desastre marítimo do mundo, com 1.500 mortos. Infelizmente, esse não é o maior desastre marítimo do mundo. Esse terrível título pertence ao Wilhelm Gustloff , um navio alemão torpedeado por um submarino russo em 1945. Essa agressão cruel provocou a morte de mais de 6.000 pessoas!
Era trinta de Janeiro de 1945 e o Wilhelm Gustloff iniciou mais uma viagem pelo Mar Báltico, com destino às cidades de Kiel e Flensburg, localizadas no que na época referia-se como Alemanha do Ocidente (não confundir com o que viria a ser conhecida como Alemanha Ocidental, da época da Guerra Fria). A bordo , mais de 6.000 pessoas excediam a capacidade do navio. A maioria era composta por mulheres e crianças, idosos e cerca de 1.200 soldados feridos. Alguns historiadores afirmam que havia muito mais pessoas, a maioria clandestinos.Esse imponente navio , que tinha seu nome escrito em seus bordos em letras góticas, possuía uma excelente equipagem mas, devido a estar servindo como navio hospital já a alguns anos, ele se encontrava em mal estado de conservação. Seus potentes motores, que eram capazes de impulsionar o navio a velocidades acima dos que a que os submarinos da época podiam atingir, agora só atingiam 12 nós, transformando-o em um alvo fácil para os "lobos dos mares".
O capitão do Wilhelm Gustloff foi responsabilizado pelo afundamento devido a duas decisões tomadas por ele: a primeira de utilizar a rota 58, que era um curso mais ao Norte e em águas mais profundas, que permitia a ação de submarinos. A outra decisão foi a de iluminar o navio totalmente, tornando - o um alvo de fácil visualização.Enquanto as horas se passavam, o mau tempo - que era um aliado do Gustloff - foi se esvaindo e dando lugar à condições melhores. Como se isso não bastasse, um dos navios da escolta, o TF-1, precisou retornar ao porto para reparos. Esses eventos delineavam, a cada momento, a mão do destino indo de encontro ao Majestoso navio e não demorou muito para que alertas de "submarinos na área" ecoassem em toda a área do Sul do Mar Báltico.Após o armistício, os Russos conseguiram importantes bases na Finlândia e foi de uma dessas bases, localizada na península de Hango, que o submarino russo S-13 navegou em 11 de Janeiro sob o comando do capitão Alexander Marinesco.
Dezenove dias se passaram até que, no final de mais um dia improdutivo, o oficial de serviço foi até a ponte e, a medida que a neblina local se dissipava, ele observou ao longe um enorme navio com todas as luzes acessas. Sem hesitar, chamou o capitão à ponte e poucos segundos se passaram até que o Capt. Marinesco desse ordens que trariam o S-13 à vida : "Postos de Combate , leme todo a direita, curso 2-3-0, máquinas força total avante!".Em alguns minutos, o submarino se aproximou do Gustloff e, quando estava a cerca de 1.000 metros de distância do navio , ordenou o disparo de três torpedos que atingiram em cheio o casco, provocando confusão e desespero a bordo. Na ponte , o capitão sabia que três explosões seguidas como aquelas só poderiam significar uma coisa: torpedos! Um pedido de S.O.S. foi emitido (Save our Souls).Uma confusão geral se instalou no navio, com as milhares pessoas a bordo tentando entrar nos botes salva vidas. Alguns destes botes viraram, ainda presos nos turcos, e arremessaram as pessoas na águas geladas do Báltico. Naquela situação desesperadora, o frio, stress e cansaço logo minaram as forças das pessoas que tentavam se salvar e, uma a uma, foram se deixando levar pelo terrível destino que as aguardava.
O navio escolta "Lowe" aproximou-se rapidamente do navio agonizante e recolheu o máximo de pessoas que podia, até que seus próprios tripulantes se esgotaram com o esforço que faziam.Um outro navio alemão, o Admiral Hipper, vinha em uma rota próxima , navegando a 32 nós. A bordo, trazia cerca de 1.500 refugiados. Ao se aproximar do Wilhelm Gustloff, ele chegou a conclusão que uma tentativa de resgate seria muito difícil, pois o navio já adernara 30º. Enquanto pensava no que iria fazer para ajudar, o vigia do Hipper viu um, depois outro torpedo, indo em direção do navio - seu capitão decidiu abandonar a área, causando mais tarde repulsa entre seus contemporâneos.Abandonados à própria sorte e agora frente a frente com o destino, o Wilhelm Gustloff foi ao fundo levando consigo cerca de 6.000 vítimas. Hoje, o local do naufrágio é conhecido nas cartas náuticas polonesas como "Obstáculo nº 73".Apesar de ser considerado um "túmulo de guerra" pelo governo Polonês e o mergulho no local ser restrito - praticamente proibido - desde seu afundamento o Wilhelm Gustloff vem sofrendo ações de demolição.Esse trabalho de pilhagem parece ter começado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial e a principal evidência desta ação está na ausência dos hélices do navio, que foram provavelmente retirados pelos russos que procuravam por outras coisas de valor além do bronze que compõe a grande parte dos itens de equipagens de navios.
Mais informações sobre o Gustloff (em alemão e inglês):
http://www.mboring.com/wilhelm-gustloff/wgphotos-uw-01.htmlcollege.hmco.com





A Olímpiada de Berlim - 1936A imprensa nos conta que, durante a edição de 1936 dos jogos olímpicos, realizada na Alemanha com o objetivo de demonstrar ao mundo a supremacia da raça ariana, o atleta americano Jesse Owens , de cor negra, ao conseguir 4 medalhas de ouro no atletismo, teria derrubado esse mito, o chanceler Hitler, por este motivo, se recusou a cumprimentá-lo e abandonou o estádio.Esta é uma das lendas mais frágeis contadas no último século, já que houve uma ampla cobertura dos veículos de mídia da época, que, coincidentemente, nunca foram utilizados como fonte de consulta. Não obstante, os jornalistas poderão averigüar que este ano a mentira será explorada novamente, graças às Olimpíadas chinesas.

Berlim 36

O que ocorreu na época, foi bastante diferente da versão oficial, como poderão ver abaixo.
No primeiro dia de competições, 02/08/1936, Hitler cumprimentou pessoalmente o atleta Hans Woellke, primeiro atleta alemão a receber a medalha olímpica de ouro desde 1896. Durante o resto do dia, Hitler cumprimentou e felicitou em uma sala VIP os outros atletas, alemães e não alemães.Esta notícia foi também publicada no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, no dia 05/08/1936, cujo texto foi "Hitler assistiu parte das provas no Estádio, fez-se apresentar aos vencedores das provas que acabara de assistir da Tribuna do Governo. Felicitou pessoalmente a Srta. Fleischer, da Alemanha, pela primeira vitória no arremesso de dardo. O Diretor de Esportes, Von Tschaumer Osten, apresentou também as Srtas. Krüger, da Alemanha, 2ª colocada e Knasniewska, da Polônia, 3ª colocada. Algum tempo depois os três finlandeses dos 10.000 metros, o alemão Woellke, 1º colocado no arremesso de peso, o finlandês Baerlunde, 2º colocado e o alemão Stoeck, 3º colocado, também foram apresentados a Hitler."Antes de se retirar do estádio, porém, o presidente do COI (Comitê Olímpico Internacional), o Sr. Baillet-Latour, comunicou a Hitler de que ele havia quebrado o protocolo olímpico ao recepcionar e cumprimentar pessoalmente os vencedores das provas. Hitler pediu desculpas e afirmou que não mais o faria, até o fim dos jogos Olímpicos. Isso ocorreu no momento entrega da medalha ao atleta Cornélius Johnson, também americano, e não Jesse Owens.

A partir deste momento até o fim dos jogos olímpicos, Hitler não cumprimentou mais nenhum atleta, tanto alemão, quanto não alemão. Os cumprimentos de Hitler no dia 02/08/1936 foram os únicos cumprimentos públicos de Hitler por ocasião das Olimpíadas.Este acontecimento foi amplamente divulgado inclusive pelo Sr. K. C. Duncan, Secretário Geral da Associação Olímpica Britânica, membro do COI.O atleta Jesse Owens, após a conquista das quatro medalhas de ouro e igualando o recorde mundial dos 100 metros rasos e quebrando os recordes de salto em distância, 200 metros rasos e revezamento 4x100 metros, ficou tão popular na Alemanha, que praticamente ficou impossibilitado de sair da vila olímpica, devido à enorme quantidade de pessoas que queriam seu autógrafo. Chegou a pedir ajuda a outro atleta negro, Herb Fleming, para ajudá-lo a autografar.Concluída a Olimpíada, o governo alemão proporcionou a Jesse Owens e mais alguns atletas americanos uma exibição na cidade de Colônia.
O descaso americano

Parece ironia, mas Jesse Owens, ao retornar aos EUA, não foi recebido com nenhuma honra, como é costume aos vencedores dos jogos olímpicos.Na verdade, o presidente americano na época, Franklin D. Roosevelt, estava envolvido na eleição e, preocupado com os votos dos estados do sul, cujo histórico de segregação racial e manifestações violentas de racismo é notório, se recusou a recebê-lo na Casa Branca. Não se sabe por que motivo também, o atleta Jesse Owens desistiu de sua carreira no atletismo e se tornou um regente de um grupo musical e nunca mais competiu.
Pronunciamentos de Jesse Owens

Após a vitória dos 100 metros rasos, em 03/08/36, Jesse Owens falou que "é difícil imaginar como me sinto feliz. Pareceu-me de um momento para outro que, quando corria, possuía asas. Todo o estádio apresentava um aspecto tão festivo que me contagiei e foi com mais alegria que corri, parecendo que havia perdido o peso do meu corpo. O entusiasmo esportivo dos espectadores alemães me causou profunda impressão, especialmente a atitude cavalheiresca da assistência. Podem dizer a todos que agradecemos a hospitalidade germânica." (Jornal Correio do Povo, de 04/08/36).Na sua biografia, publicada nos EUA em 1970, Jesse Owens diz o seguinte: "Quando eu passei pelo Chanceler (Hitler), ele se levantou, acenou para mim e eu acenei de volta. Eu acho que os escritores mostraram má vontade ao criticar o homem da vez da Alemanha".

Afinal, quem ganhou as Olimpíadas?

A história conhecida por todos nos mostra que Jesse Owens teria derrubado o "mito ariano", ao conseguir as quatro medalhas de ouro, mas nunca nos é noticiado um dado imprescindível, que derruba essa história: quem realmente ganhou as Olimpíadas de 1936.Coincidência ou não, nunca foi publicado, pelos grandes meios de comunicação e por ocasião do ressurgimento recorrente desta notícia, o quadro de honra, com as medalhas por países.Em nenhuma reportagem aparece quem ganhou as Olímpiadas de 1936 e nem é mostrado o quadro de medalhas.Analisando os fatos mencionados nesse texto, fica evidente, de forma muito clara, que o que se conta a respeito do ocorrido nas Olimpíadas de 1936 não passa de uma distorção completamente falsa e proposital.Resta provado, através de publicações da época, que Hitler não se recusou a cumprimentar Jesse Owens e que o fato de ele não ter parabenizado mais nenhum atleta olímpico se deve à uma solicitação do próprio COI, que nunca se pronunciou a respeito do ocorrido.Quanto ao fato de Jesse Owens ter sido negligenciado pelo simples fato de ser negro, também a alegação é falsa, como pode ser observado pelas próprias alegações do atleta e pelo fato de ter sido promovida a apresentação dentro da Alemanha, por conta do governo alemão, de sua equipe.Sabemos o motivo de se pegar um fato isolado (as 4 medalhas de ouro) e transformá-lo na derrota alemã das Olimpíadas, ou como derrota do sistema político governante à época, ocultando a informação do quadro de medalhas, que contraria completamente a versão contada pela imprensa mundial.Lamentável que um fato mentiroso, amplamente rebatido com documentos, persista em todos os noticiários e reportagens até os dias atuais.A trágica guerra só começaria em 1939, mas seus efeitos duram até hoje.


quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A partilha da África pelos europeus

O Continente africano limita-se ao Norte pelo Mar Mediterrâneo, ao Oeste pelo Oceano Atlântico e ao Leste pelo Oceano Índico. De uma maneira simplificada podemos dividi-lo em duas zonas absolutamente distintas: o centro-norte é dominado pelo imenso deserto do Saara (8.600.000 de km2), enquanto que o centro-sul, depois de percorrer-se as savanas, é ocupado pela floresta tropical africana.Esta separação geográfica também refletiu-se numa separação racial. No Norte do continente habitam os árabes, os egípcios, os berberes e os tuaregues (sendo que esse dois últimos são os que praticam o comércio transaarino). No centro-sul, ao contrário, habitam mais de 800 etnias negras africanas. Atribui-se ao atraso da África meridional ao isolamento geográfico que a população negra encontrou-se através dos séculos. Afastada do Mediterrâneo - grande centro cultural da Antigüidade - pelo deserto do Saara, e longe dos demais continentes pela dimensão colossal dos dois oceanos, o Atlântico e o Índico. Apartados do resto do mundo, os africanos se viram vítimas de expedições forâneas que lhes devoravam os filhos ao longo da história.Mesmo antes da chegada dos traficantes de escravos europeus, os árabes já praticavam o comércio negreiro, transportando escravos para a Arábia e para os mercados do Mediterrâneo oriental, para satisfazer as exigências dos sultões e dos xeques. As guerras tribais africanas, por sua vez, favoreciam esse tipo de comércio, visto que a tribo derrotada era vendida aos mercadores.
O tráfico de escravos
Durante os primeiros quatro séculos - do século 15 a metade do 19 - de contato dos navegantes europeus com o Continente Negro, a África foi vista apenas como uma grande reserva de mão-de-obra escrava, a “madeira de ébano” a ser extraída e exportada pelos comerciantes. Traficantes de quase todas as nacionalidades montaram feitorias nas costas da África. As simples incursões piratas que visavam inicialmente atacar de surpresa do litoral e apresar o maior número possível de gente, foi dando lugar a um processo mais elaborado.Os mercadores europeus, com o crescer da procura por mão-de-obra escrava, motivada pela instalação de colônias agrícolas na América, associaram-se militarmente e financeiramente com sobas e régulos africanos, que viviam nas costas marítimas, dando-lhes armas, pólvora e cavalos para que afirmassem sua autoridade numa extensão a maior possível. Os prisioneiros das guerras tribais eram encarcerados em “barracões”, em armazéns costeiros, onde ficavam a espera da chegada dos navios tumbeiros ou negreiros que os levariam como carga humana pelas rotas transatlânticas.Os principais pontos de abastecimento de escravos, pelos menos entre os séculos 17 e 18 eram o Senegal, Gâmbia a Costa do Ouro e a Costa dos Escravos. O delta do Níger, o Congo e Angola serão grandes exportadores nos séculos 18 e 19. Quantos escravos foram afinal transportados pelo Atlântico? Há muita divergência entre os historiadores, alguns chegaram a projetar 50 milhões, mas R. Curtin (in The Atlantic slave trade: A census, 1969) estima entre 9 a 10 milhões, a metade deles da África Ocidental, sendo que o apogeu do tráfico ocorreu entre 1750 a 1820, quando os traficantes carregaram em média uns 60 mil por ano. O tráfico foi o principal responsável pelo vazio demográfico que acometeu a África no século 19.
África Negra(colonização, escravidão e independência)

A partilha da África
A partir do momento que o continente africano não podia mais fornecer escravos, o interesse das potências colônias inclinou-se para a sua ocupação territorial. E isso deu-se por dois motivos, O primeiro deles é que ambicionavam explorar as riquezas africanas, minerais e agrícolas, existentes no hinterland, até então só parcialmente conhecidas. O segundo deveu-se à competição imperialista cada vez maior entre elas, especialmente após a celebração da unificação da Alemanha, ocorrida em 1871. Por vezes chegou-se a ocupar extensas regiões desérticas, como a França o fez no Saara (chamando-a de França equatorial), apenas para não deixa-las para o adversário.Antes da África ser dominada por funcionários metropolitanos, a região toda havia sido dividida entre várias companhias privadas que tinham concessões de exploração. Assim a Guiné estava entregue a uma companhia escravista francesa. O Congo, por sua vez, era privativo da Companhia para o Comércio e Industria, fundada em 1889, que dividia-o com a companhia Anversoise, de 1892 .O Alto Níger era controlado pela Companhia Real do Níger, dos britânicos. A África Oriental estava dividida entre uma companhia alemã, dirigida por Karl Peters, e uma inglesa, comandada pelo escocês W.Mackinnon. Cecil Rhodes era o chefe da companhia sul-africana que explorou a atual Zâmbia e Zimbawe, enquanto o rei Leopoldo II da Bélgica autorizava a companhia de Katanga a explorar o cobre do Congo belga.
O Congresso de Berlim
Atendendo ao convite do chanceler do II Reich alemão, Otto von Bismarck, 12 países com interesse na África encontraram-se em Berlim - entre novembro de 1884 a fevereiro de 1885 -, para a realização de um congresso. O objetivo de Bismarck é que os demais reconhecessem a Alemanha como uma potência com interesses em manter certas regiões africanas como protetorados. Além disso acertou-se que o Congo seria propriedade do rei Leopoldo II da Bélgica (responsável indireto por um dos mais terríveis genocídios de africanos), convertido porém em zona franca comercial. Tanto a Alemanha, como a França e a Inglaterra combinaram reconhecimentos mútuos e acertaram os limites das suas respectivas áreas. O congresso de Berlim deu enorme impulso à expansão colonial, sendo complementado posteriormente por acordos bilaterais entre as partes envolvidas, tais como Convênio franco-britânico de 1889-90, e o Tratado anglo-germânico de Heligoland, de 1890. Até 1914 a África encontrou-se inteiramente divida entre os principais países europeus (Inglaterra, França, Espanha, Itália, Bélgica, Portugal e Alemanha). Com a derrota alemã de 1918, e obedecendo ao Tratado de Versalhes de 1919, as antigas colônias alemãs passaram à tutela da Inglaterra e da França. Também, a partir desse tratado, as potências comprometeram-se a administrar seus protetorados de acordo com os interesses dos nativos africanos e não mais com os das companhias metropolitanas. Naturalmente que isso ficou apenas como uma afirmação retórica.
A reação dos africanos
A conquista da África foi entremeada de tenaz resistência nativa. A mais célebre delas foram as Guerras Zulus, travadas no século 19 pelo rei Chaka (que reinou de 1818 a 1828) na África do Sul, contra os ingleses e os colonos brancos boers. Entrementes, os colonizadores começaram a combater as endemias e doenças tropicais que dificultavam a vida dos europeus através do saneamento e da difusão da higiene. A África era temida pelas doenças tropicais: a febre amarela, a malária e a doença do sono, bem como da lepra. O continente, igualmente, ocupado por missões religiosas, tanto católicas como protestantes. Junto com o funcionário colonial, o aventureiro, o fazendeiro, e o garimpeiro branco, afirmou-se lá, em caráter permanente, o padre ou o pastor pregando o evangelho.Essa ocupação escancarada provocava amargura entre os africanos que se sentiam inferiorizados e impotentes perante a capacidade administrativa, militar e tecnológica, do colonialista europeu. Já na metade do século 19, o afro-americano Edward W. Blyden, que emigrara para a Libéria em 1850, descontente com a perda da auto-estima dos negros, proclamava a existência de uma “personalidade africana” com méritos e valores próprios, contraposta a dos brancos. E, imitando James Monroe, lançou o slogan “África para os africanos!”.Em 1919 reuniu-se em Paris, o 1º Congresso Pan-africano, organizado pelo intelectual afro-americano W.E.B. Du Bois. Reivindicou ele um Código Internacional que garantisse, na África tropical, o direito dos nativos, bem como um plano gradual que conduzisse à emancipação final das colônias. Conquanto que, para os negros americanos, era solicitado a aplicação dos direitos civis (que só foram finalmente aprovados pelo congresso dos E.U.A. em 1964!).O último congresso Pan-africano, o 5º, reuniu-se em Manchester, na Inglaterra, em 15-18 de outubro de 1945, tendo a presença de Du Bois, Kwane Nkurmah, futuro emancipador da Ghana, e Jomo Kenyatta, o líder da Quênia. Trataram de aclamar a necessidade da formação de movimentos nacionalistas de massas para obterem a independência da África o mais rápido possível.
A descolonização
A descolonização tornou-se possível no após-1945 devido a exaustão em que as antigas potências coloniais se encontraram ao terem-se dilacerado em seis anos de guerra mundial, de 1939 a 1945. Algumas delas, como a Holanda, a Bélgica e a França, foram ocupados pelos nazistas, o que acelerou ainda mais a decomposição dos seus impérios no Terceiro Mundo. A guerra também as fragilizou ideologicamente: como podiam elas manter que a guerra contra Hitler era uma luta universal pela liberdade contra a opressão se mantinham em estatuto colonial milhões de asiáticos e africanos?A Segunda Guerra Mundial se debilitou a mão do opressor colonial, excitou o nacionalismo dos nativos do Terceiro Mundo. Os povos asiáticos e africanos foram assaltados pela impaciência com sua situação jurídica de inferioridade, considerando cada vez mais intolerável o domínio estrangeiro. Os europeus, por outro lado, foram tomados por sentimentos contraditórios de culpa por manterem-nos explorados e sob sua tutela, resultado da influencia das idéias filantrópicas, liberais e socialistas, que remontavam ao século 18. Haviam perdido, depois de terem provocado duas guerras mundiais, toda a superioridade moral que, segundo eles, justificava seu domínio.Quem por primeiro conseguiu a independência foram os povos da Ásia (começando pela Índia e Paquistão, em 1946). A maré da independência atingiu a África somente em 1956. O primeiro pais do Continente Negro a conseguí-la foi Ghana, em 1957. Em geral podemos separar o processo de descolonização africano em dois tipos. Aquelas regiões que não tinham nenhum produto estratégico (cobre, ouro, diamantes ou petróleo) conseguiram facilmente sua autonomia, obtendo-a por meio da negociação pacífica. E, ao contrário, as que tinham um daqueles produtos, considerados estratégicos pela metrópole, explorados por grandes corporações, a situação foi diferente (caso do petróleo na Argélia e do cobre no Congo belga). Neles os colonialistas resistiram aos movimentos autonomistas, ocorrendo movimentos de guerrilhas para expulsá-los.Apesar da existência de 800 etnias e mais de mil idiomas falados na África, podemos encontrar alguns denominadores comuns entre os partidos e movimentos que lutaram pela descolonização. O primeiro deles é de que todos eles ambicionavam a independência, conquistada tanto pela vertente de radicalismo revolucionário ou através do reformismo moderado, que tanto podia implantar uma republica federativa como uma unitária.Em geral, os partidos optaram pelo centralismo devido a dificuldade em obter consenso entre tribos rivais. Esse centralismo é geralmente assumido pelo próprio líder da emancipação, (como Nkrumah em Ghana) pelo partido único (ou “partido dominante” como definiu-o Leopold Senghor, do Senegal) ou ainda, por um ditador militar (como Idi Amin Dada em Uganda, ou Sese Seko Mobuto no Zaire). A negritude (movimento encabeçado por Aimé Césaire, um poeta martinicano, e pelo presidente senegalês Leopold Senghor) foi também um ponto em comum, marcadamente entre os países afro-francofônicos, que exaltavam as qualidades metafísicas dos africanos. Finalmente todos manifestavam-se a favor do pan-africanismo como uma aspiração de formar governos “por africanos e para africanos, respeitando as minorias raciais e religiosas”.
Dificuldades africanas
Na medida em que em toda a história da África anterior ao domínio europeu, desconhecia-se a existência de estados-nacionais, segundo a concepção clássica (unidade, homogeneidade e delimitação de território), entende-se a enorme dificuldade encontrada pelas elites africanas em constituí-los em seus países. Existiam anteriormente na África, impérios, dinastias governantes, milhares de pequenos chefes e régulos tribais, mas em nenhuma parte encontrou-se estados-nacionais. O que havia era uma intensa atomização política e social, um facciosismo crônico, resultado da existência de uma infinidade de etnias, de tribos, quase todas inimigas entre si, de grupos lingüísticos diferentes (só no Zaire existem mais de 40), e de incontáveis castas profissionais. O fim da Pax Colonialis, seguida da independência, provocou, em muitos casos, o afloramento de antigos ódios tribais, de velha rivalidades despertadas pela proclamação da independência, provocando violentas guerras civis (como as da Nigéria, do Congo e, mais recentemente, as da Angola, Moçambique, Ruanda, Burundi, Serra Leoa e da Libéria).Essas lutas geraram uma crônica instabilidade em grande parte do Continente que contribuiu para afastar os investimentos necessários ao seu progresso. Hoje a África, com exceção da África do Sul, Nigéria e o Quênia, encontra-se praticamente abandonada pelos interesse internacionais. Os demais parecem ter mergulhado numa interminável guerra tribal, provocando milhões de foragidos (na África estão 50 % dos refugiados do globo) e um número incalculado de mortos e feridos. É certamente a parte do mundo onde mais guerras são travadas. Como um incêndio na floresta, encerra-se a luta numa região para logo em seguida arder uma mais trágica ainda logo adiante.De certa forma todos os povos pagam pelos seus defeitos culturais. Neste sentido o arraigado tribalismo africano é o grande impedimento para concretizar a formação de um estado-nacional estável. Enquanto as massas negras não conseguirem superar as rivalidades internas dificilmente poderão formar regimes sólidos, íntegros, que superem a dicotomia entre ditadura ou anarquia tribal. A grande geração que conseguiu a independência, homens como K.Nkrumah, Jomo Kenyatta, Agostinho Neto, Samora Machel, Kenneth Kaunda, Julius Nyerere, Leopold Senghor ou Nelson Mandela estão mortos ou envelheceram. Nenhum dos sucessores desses grandes homens, têm conseguido o respeito da população e o carisma necessário para manter seus respectivos países unidos. Em muitos casos eles foram substituídos por chefes dominados por interesses localistas e familiares, de visão estreita, sem terem o sentido de abrangerem o restante dos seus cidadãos. É hora pois dos líderes africanos pararem de jogar pedras sobre o passado colonial e assumirem a responsabilidade pelo destino dos povos que ajudaram a emancipar.

I guerra mundial - Guerra das trincheiras

TÁTICAS DE INFANTARIA



No início do séc. XX a maioria dos chefes militares dava uma grande importância à utilização da infantaria em ataques com baioneta apoiados pela cavalaria e por peças móveis de artilharia. Os oficiais franceses eram grandes adeptos desta táctica e, na 1ª Guerra Mundial, enviaram soldados para o campo de batalha sem equipamento adaptado às trincheiras. Diziam que as precauções defensivas eram desnecessárias se se fizessem ataques maciços e suficientemente rápidos.Estas tácticas foram postas em causa depois dos exércitos terem sofrido pesadas baixas em ataques contra trincheiras defendidas por metralhadoras. Apesar dos bombardeamentos que se faziam antes dos soldados avançarem, do uso de gás e de lança-chamas, a infantaria fracassou na Frente Ocidental nas batalhas que se travaram em 1915.Só em Amiens, em 1918, quando o coronel John Fuller conseguiu convencer o general Henri Rawlinson a usar 412 tanques de guerra seguidos por soldados e apoiados por 1000 aviões de combate é que os aliados conseguiram quebrar as defesas dos alemães na Frente Ocidental.

Depois da batalha do Marne em Setembro de 1914, os alemães foram forçados a retirar até ao rio Aisne. O Comandante alemão, General Erich von Falkenhayn, decidiu que as suas tropas deviam permanecer a todo o custo nas zonas que ainda ocupavam entre a Bélgica e a França. Falkenhayn ordenou que os seus homens cavassem trincheiras que lhes dariam protecção contra o avanço das tropas francesas e inglesas. Os "aliados" rapidamente perceberam que não conseguiam ultrapassar esta linha e começaram também a cavar trincheiras.
Depois de alguns meses estas trincheiras cobriam já uma área que ia do Mar do Norte até à fronteira Suíça. Como os alemães foram os primeiros a usar esta táctica, puderam escolher os melhores locais para fazerem as trincheiras. Isto deu-lhes vantagem e obrigou os franceses e os ingleses a viverem em piores condições. Grande parte desta zona estava a menos de um metro acima do nível do mar, por isso, não raras vezes, os soldados começavam a cavar e encontravam água. Trincheiras inundadas ou enlameadas eram um problema constante para os soldados da Frente Ocidental.As trincheiras tinham habitualmente 2,30 metros de profundidade e 2 metros de largura. Nos parapeitos das trincheiras eram colocados sacos de areia (os "parados") para absorverem as balas e os estilhaços das bombas. Numa trincheira com esta profundidade não se conseguia espreitar, por isso, havia uma espécie de elevação no interior conhecida como "fire step".As trincheiras não eram construídas em linha recta. Muitas eram perpendiculares de forma a que se o inimigo conseguisse tomar uma parte da trincheira, estava sujeito ao fogo das de apoio e das perpendiculares.As trincheiras eram protegidas pelo arame farpado e por postos de metralhadora (muitos deles de espesso betão armado). Cavavam-se também trincheiras pela "terra de ninguém" dentro para ouvir o que se passava na posição inimiga ou para capturar soldados e depois interrogá-los.

A TERRA DE NINGUÉM
"Terra de ninguém" foi o termo usado pelos soldados para descrever o terreno entre duas trincheiras inimigas. A distância entre elas variava, mas na Frente Ocidental era, em média, de 230 metros.A "Terra de ninguém" continha grandes quantidades de arame farpado. Nas zonas de onde se previam mais ataques podiam haver 10 barreiras de arame farpado antes da primeira trincheira. Em algumas zonas o arame farpado ocupava mais de 30 metros de espessura.Se fosse uma área sujeita a ataques constantes, a "terra de ninguém" ficava cheia de equipamento militar destruído e abandonado e de corpos que com o tempo entravam em decomposição. Era, juntamente com as trincheiras, território para ratos e doenças.Era muito difícil atravessar a "terra de ninguém". Os soldados não só tinham que evitar as metralhadoras e as explosões, como tinham que ultrapassar as inúmeras barreiras de arame farpado, os detritos de material destruído ou abandonado e as crateras cheias de água e lama provocadas pelas bombas.

GÁS VENENOSO

Os gases venenosos eram conhecidos muito antes da 1ª Guerra Mundial, mas os oficiais do exército mostravam relutância em os utilizar por que os consideravam uma arma incivilizada. O exército francês foi o primeiro a utilizá-los, quando no primeiro mês de guerra dispararam granadas de gás lacrimejante contra os alemães.Em Outubro já os alemães disparavam bombas com gás irritante. Começaram por usar gás de cloro. Este gás destruía os órgãos respiratórios e provocava uma lenta morte por asfixia.Era importante ter em consideração as condições atmosféricas antes de lançar um ataque com gás. Quando o exército britânico lançou um ataque com gás em 25 de Setembro de 1915, o vento soprou contra o rosto das tropas britânicas mais avançadas provocando pesadas baixas... Este problema foi ultrapassado em 1916 quando se começou a utilizar a artilharia pesada para lançar bombas de gás a grande distância.Depois do primeiro ataque alemão com gás cloro, as tropas aliadas eram abastecidas com máscaras de almofadas de algodão que iam sendo embebidas em urina. Tinha sido descoberto que o amoníaco das almofadas de algodão neutralizava o veneno. Outros soldados preferiam usar luvas, meias e cintos de flanela embebidos numa solução de bicarbonato de soda atados à volta da boca e do nariz até que o gás desaparecesse. Somente em julho de 1915 é que foram dadas aos soldados máscaras de gás eficientes e respiradouros anti-asfixia.Uma das desvantagens do uso de gás cloro era que, ainda que provocasse a morte, esta só acontecia bastante tempo depois e, entretanto, o soldado continuava em condições de combater. Por esse motivo começou-se a usar fosgénio. Apenas uma pequena quantidade impossibilitava o soldado inimigo de continuar a combater e provocava a sua morte em 48 horas.O gás mostarda foi usado pela primeira vez pelo exército alemão em Setembro de 1917. O mais mortífero dos venenos usados na guerra quase não tinha cheiro e demorava apenas 12 horas a produzir efeito. Este gás era tão potente que apenas pequenas quantidades precisavam de ser adicionadas às bombas para produzir efeito. Uma vez depositado no solo, o gás mantinha-se activo durante várias semanas.Foi estimado que os alemães usaram 68 000 toneladas de gás contra os soldados aliados, mais do que o exército francês (36 000 toneladas) e o exército britânico (25 000 toneladas) juntos. Estima-se que 91 198 soldados morreram em resultado de ataques com gás e 1 200 000 foram hospitalizados. O exército russo foi o que mais sofreu com este tipo de guerra com cerca de 56 000 mortos.

Cadê meu imosec ????


Nem cavalo (era uma mula), nem uniforme de gala (vestia roupa simples de viagem), nem um gritinho (muito menos um 'brado retumbante'). E foi no alto da colina - e não às margens do Ribeirão Ipiranga - que D. Pedro emitiu um desabafo declarando a independência do Brasil. Junto a ele, apenas dois mensageiros e os quatro cavaleiros que faziam "paredinha" enquanto mais uma vez se aliviava de uma diarréia fecunda causada pelas costelinhas de porco que comera na noite anterior em Santos, na casa dos Andradas. O Príncipe Regente fora medicado ainda no litoral, com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar, mas a beberagem pouco adiantou. Durante a subida da serra pela íngreme Calçada do Lorena, em direção a São Paulo, debaixo de muita chuva, foram necessárias várias paradas para o jovem "obrar". Próximo ao destino, mandou que a comitiva o aguardasse adiante pois precisava novamente defecar. Foi para o alto do morro do Ipiranga, a mais de um quilômetro das "margens do Ipiranga" e estava de calças arriadas quando os mensageiros chegaram. Debilitado, sujo de fezes e de lama, leu as notícias, subiu as calças e disse aos acompanhantes que bastava, agora era ir contra Portugal ou morrer (primeira declaração). Foi então em direção à comitiva, que o aguardava no meio da encosta (ainda bem distante do ribeirão), e lhe comunicou formalmente a sua decisão, mandando que tirasse as fitas com as cores de Portugal que trazia em seus uniformes (segunda declaração). Não houve nenhum grito (só se foi pela dor de barriga) e nem as margens do Ipiranga ouviram nada, porque estavam longe. Isto não diminui a bravura de D. Pedro ao nos desvencilhar de Portugal, embora se saiba hoje que a nossa independência se deu muito mais por interferência velada de Dona Leopoldina que propriamente pelo esforço de seu marido, mas isso é outra história. D. Pedro I herdou de D. João a fraqueza gastrointestinal. Nas cartas que enviou à sua amante, Marquesa de Santos, cita por várias vezes seu problema. Numa de dezembro de 1827, ele conta: "Cheguei a casa, tomei a tisana (remédio) e obrei até agora cinco vezes e muito". Noutra carta, ele diz: "Eu não passei muito bem... depois obrei e agora estou perfeitamente bom...". Mas nem todas as cartas dele eram assim. Numa delas, de julho de 1826, dedicou um poema malicioso à amante: "Este lindo passarinho canta, brinca, pica e fura, mas quando torna a repicar, é mais doce a picadura." A Marquesa de Santos recebia notícias dos problemas coprológicos até das filhas do Imperador. Numa carta de setembro de 1827, ele relatava que a filha de ambos, Duquesa de Goiás, "tomou um purgante de óleo de mamona, com que obrou três vezes e deitou uma lombriga". Talvez receoso de que estivesse passando dos limites com assuntos tão grosseiros, D. Pedro se desculpou com a Marquesa, alegando numa correspondência de dezembro de 1827 que nele "a fruta é fina, posto que a casca seja grossa". Daí vem a expressão "casca grossa" para se referir a uma pessoa com pouca educação ou refinamento. Uma curiosidade é a famosa tela de Pedro Américo retratando a cena do Ipiranga, pois hoje sabe-se que quase tudo nela representado é falso e que se constitui num plágio sem-vergonha da pintura "1807, Friedland" de Ernest Meissonier. Pedro Américo já tinha sido acusado anos antes de ter copiado a "Batalha de Montebelo", de Appiani, para fazer a sua "Batalha de Avaí".



Veja no link abaixo como as telas do Ipiranga e de Friedland são muito semelhantes: http://www.constelar.com.br/revista/edicao46/urano5telas.htmEmbora menos espetacular, existe uma obra que retrata fielmente a cena do Ipiranga e que não é muito badalada: a tela de François-René Moreaux, intitulada "Proclamação da Independência", pintada em 1844, que está no Museu Imperial, em Petrópolis.